Dois princípios, um universo
O Sámkhya propõe uma leitura dualista da existência: de um lado, Púrusha — a consciência pura, testemunha imóvel, aquilo que em cada ser simplesmente observa; de outro, Prákriti — a natureza primordial, matéria e movimento, a causa de tudo o que se manifesta, se transforma e se dissolve.
A confusão entre esses dois princípios — tomar os movimentos de Prákriti (pensamentos, emoções, sensações) como se fossem a própria identidade de Púrusha — é, para o Sámkhya, a raiz do sofrimento. O discernimento entre os dois (vivêka) é o caminho da libertação.
Os três gúnas
Prákriti se expressa por meio de três qualidades ou tendências fundamentais, os gúnas, presentes em graus variados em tudo o que existe:
Sátwa — clareza, leveza, equilíbrio; Rájas — atividade, movimento, desejo; Támas — inércia, densidade, obscuridade. Nenhum estado da natureza — um pensamento, um alimento, uma emoção — escapa a essa combinação. A prática, no Sámkhya como no Yôga, é o cultivo progressivo de Sátwa.
Conhecer não é acumular informação sobre o mundo — é discernir, com precisão cada vez maior, o que observa daquilo que é observado.
A evolução dos tattwas
A partir do contato entre Púrusha e Prákriti, a tradição descreve uma sequência de vinte e cinco princípios (tattwas) que evoluem da matéria mais sutil à mais densa: de Prákriti não manifesta surge Mahat (a inteligência cósmica), depois ahankára (o princípio de individuação), e deste, os órgãos dos sentidos, os órgãos de ação, a mente (manas), os cinco tanmátras (essências sutis) e os cinco mahábhútas (elementos densos) — terra, água, fogo, ar e éter.
Esse mapa não é apenas cosmológico: é também um mapa da experiência interna, útil para reconhecer, na prática de introspecção, em que nível — sensação, emoção, pensamento, identidade — uma perturbação está de fato ocorrendo.
Sámkhya e Yôga
Pátañjali não inventa o Sámkhya; ele o aplica. Os Yôga Sútras pressupõem o vocabulário e a cosmologia do Sámkhya clássico e acrescentam um elemento próprio: a técnica sistemática — o método — para realizar, na experiência direta, o discernimento que o Sámkhya apenas descreve. Por isso o estudo de um ilumina o do outro.